Houve uma época em que um novo videoclipe podia parar a programação, virar assunto no dia seguinte e mudar a maneira como uma banda, uma cantora ou até uma música inteira era percebida. Antes do autoplay, dos vídeos verticais e do algoritmo, os videoclipes da MTV eram vistos no ritmo da programação: perder uma estreia significava esperar a próxima exibição.
A MTV entrou no ar nos Estados Unidos em 1º de agosto de 1981, abrindo sua programação com “Video Killed the Radio Star”, dos Buggles. Mas o videoclipe não nasceu ali: Beatles, Rolling Stones e outros artistas já produziam filmes promocionais desde os anos 1960. O que a MTV fez foi transformar esse formato em uma indústria — e, durante duas décadas, em um laboratório para cineastas.
Foi nesse espaço que diretores como David Fincher, Spike Jonze, Michel Gondry, Jonathan Glazer, Mark Romanek e Chris Cunningham puderam experimentar ideias que depois apareceriam no cinema. O clipe deixou de ser apenas uma banda tocando diante de uma câmera. Virou curta-metragem, ficção científica, horror, comédia, animação, musical e espetáculo.
Esta não é uma lista dos “15 melhores clipes da história”. É uma seleção de quinze obras que ajudam a explicar um período em que o videoclipe tinha orçamento, ambição e espaço cultural suficientes para fazer a televisão parecer uma sala de cinema.
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1. Michael Jackson — “Thriller” (1983)
Direção: John Landis
“Thriller” tornou explícita a ambição cinematográfica que o videoclipe podia alcançar. Michael Jackson chamou John Landis, que já tinha dirigido Clube dos Cafajestes, Os Irmãos Cara de Pau e Um Lobisomem Americano em Londres.
O resultado tem quase 14 minutos, roteiro, personagens, diálogos, maquiagem de efeitos especiais, coreografia e uma estrutura narrativa completa. Segundo a Recording Academy, o orçamento ultrapassou meio milhão de dólares — uma quantia considerada absurda para um vídeo musical em 1983. Landis depois contou à Library of Congress que a intenção era explicitamente teatral: fazer algo que pudesse funcionar como um curta exibido antes de um filme.
“Thriller” mostrou para gravadoras, artistas e emissoras que o videoclipe podia ser mais do que publicidade para um single. Em 2009, tornou-se o primeiro videoclipe incluído no National Film Registry dos Estados Unidos.
2. a-ha — “Take On Me” (1985)
Direção: Steve Barron
“Take On Me” é um caso raro em que a imagem parece inseparável da própria música. O vídeo que o mundo conhece foi, na verdade, a segunda tentativa de promover a canção. Steve Barron criou uma história romântica em que uma mulher entra literalmente nas páginas de uma história em quadrinhos e encontra Morten Harket em um universo desenhado a lápis.
A técnica combinou filmagem em 35 mm com rotoscopia: artistas redesenharam manualmente milhares de quadros filmados. Segundo o próprio a-ha, Michael Patterson e Candace Reckinger passaram 16 semanas no processo, produzindo mais de 10 mil desenhos.
O clipe ganhou seis MTV Video Music Awards em 1986. A nova versão audiovisual também ajudou a mudar o destino comercial de uma música que não havia funcionado em sua primeira tentativa de lançamento.
3. Peter Gabriel — “Sledgehammer” (1986)
Direção: Stephen R. Johnson
Se “Thriller” mostrou que um clipe podia ser cinema narrativo, “Sledgehammer” mostrou que ele também podia ser cinema experimental. A produção misturou stop motion, pixilation, animação quadro a quadro e objetos físicos transformando o rosto e o corpo de Peter Gabriel em matéria plástica.
O time de animação incluía Nick Park, Peter Lord, Richard Goleszowski e os Brothers Quay. A Aardman já trabalhava com animação havia anos, mas “Sledgehammer” ampliou enormemente sua visibilidade internacional; o cofundador David Sproxton disse que o clipe abriu portas importantes para o estúdio. Nick Park, que participou da animação, mais tarde se tornaria mundialmente conhecido por Wallace & Gromit.
“Sledgehammer” venceu nove prêmios no VMA de 1987, incluindo Vídeo do Ano, e o próprio site de Peter Gabriel registra que ele se tornou o videoclipe mais exibido da história da MTV. Seu impacto vem justamente da textura manual: numa década em que os efeitos digitais começavam a prometer superfícies cada vez mais limpas, “Sledgehammer” parecia feito por mãos humanas quadro a quadro.
4. Madonna — “Express Yourself” (1989)
Direção: David Fincher

Anos antes de Seven, Clube da Luta e Zodíaco, David Fincher já demonstrava nos videoclipes sua obsessão por luz, arquitetura, enquadramento e controle visual. “Express Yourself” é talvez o exemplo mais explícito.
Madonna e Fincher construíram uma gigantesca cidade industrial inspirada em Metropolis, de Fritz Lang. Homens trabalham entre vapor, metal e engrenagens enquanto Madonna aparece em posições que alternam poder, desejo e espetáculo. O site oficial da cantora registra que, na época, era considerado o videoclipe mais caro já produzido.
Fincher não estava simplesmente “filmando Madonna”. Estava usando uma canção pop como desculpa para montar um mundo visual inteiro — exatamente a habilidade que depois levaria ao cinema.
5. Nirvana — “Smells Like Teen Spirit” (1991)
Direção: Samuel Bayer

Samuel Bayer imaginou uma espécie de reunião escolar apodrecida: ginásio escuro, cheerleaders com símbolos de anarquia, fumaça, arquibancadas e adolescentes que passam da apatia para o caos. O visual rompe com o brilho calculado de boa parte do rock televisivo que dominava a década anterior.
O clipe estreou no programa 120 Minutes e rapidamente passou para a rotação pesada da MTV. A partir dali, a estética dominante do rock televisivo mudou. Cabelo impecável, carros esportivos e mansões deram lugar a tênis gastos, luz amarelada e gente jogando o corpo contra a grade.
No Noise Label, a história do Radiohead ajuda a mostrar o que veio depois: boa parte do rock alternativo dos anos 1990 precisou lidar com um mundo em que imagem e som já não podiam ser separados.
6. Guns N’ Roses — “November Rain” (1992)
Direção: Andy Morahan

“November Rain” é o excesso do rock de arena convertido em melodrama. Há casamento, funeral, chuva, orquestra, igreja, cenas de estádio e uma das imagens mais reconhecíveis da era MTV: Slash saindo de uma pequena capela no meio do deserto para tocar um solo de guitarra.
Andy Morahan trata tudo como uma superprodução. Em vez de tentar condensar a música, deixa que seus mais de oito minutos se transformem numa narrativa grandiosa e deliberadamente sentimental. Décadas depois, o vídeo seria o primeiro dos anos 1990 a ultrapassar um bilhão de visualizações no YouTube.
É também um retrato de um instante em que as gravadoras aceitavam gastar fortunas para criar imagens que não seriam consumidas uma única vez, mas repetidas durante anos na televisão.
7. Beastie Boys — “Sabotage” (1994)
Direção: Spike Jonze
Spike Jonze não precisou de efeitos caros para fazer cinema. Em “Sabotage”, ele transformou os Beastie Boys nos protagonistas de uma série policial dos anos 1970 que nunca existiu.
Perucas, bigodes falsos, perseguições, zooms agressivos, policiais rolando por capôs e letreiros apresentando personagens: tudo funciona como uma paródia perfeitamente construída de programas policiais baratos. A piada só funciona porque Jonze conhece muito bem a gramática que está imitando.
Mais tarde, o mesmo diretor faria Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Ela. A Criterion Collection chegou a lançar uma antologia dos vídeos dos Beastie Boys com comentários dos diretores — um reconhecimento raro de que aqueles pequenos filmes mereciam ser tratados como cinema.
8. Nine Inch Nails — “Closer” (1994)
Direção: Mark Romanek

Mark Romanek criou para “Closer” um laboratório de imagens que parece ter sido encontrado dentro de uma lata de filme esquecida desde o século XIX. Há instrumentos científicos, animais, objetos religiosos, máquinas, grão, película danificada e Trent Reznor tratado como uma figura de exposição.
A MTV exibiu uma versão censurada, substituindo ou removendo diversos planos considerados explícitos. Isso só aumentou a aura proibida do vídeo. Em vez de ilustrar a letra, Romanek construiu um universo visual autônomo para The Downward Spiral.
A relação entre música industrial, imagem e provocação também aparece na trajetória do The Prodigy, outra banda que entendeu como a televisão podia transformar desconforto visual em identidade.
9. The Smashing Pumpkins — “Tonight, Tonight” (1996)
Direção: Jonathan Dayton e Valerie Faris

“Tonight, Tonight” olha para trás para parecer novo. Dayton e Faris recriaram a linguagem de Georges Méliès, especialmente Viagem à Lua, de 1902: cenários pintados, fumaça, truques de palco, estrelas de papel, criaturas fantásticas e efeitos deliberadamente primitivos.
A escolha combina perfeitamente com a grandiosidade orquestral da música. Em vez de competir com os efeitos digitais que começavam a dominar os anos 1990, o vídeo retorna ao nascimento dos efeitos especiais no cinema.
O clipe venceu seis categorias no VMA de 1996, incluindo Vídeo do Ano, direção, efeitos especiais, direção de arte e cinematografia. Ao recuperar deliberadamente a linguagem de Méliès, colocou referências do cinema do início do século XX diante de uma audiência pop massiva.
10. Jamiroquai — “Virtual Insanity” (1996)
Direção: Jonathan Glazer
Uma sala branca, alguns móveis, Jay Kay e uma ilusão simples: parece que o chão inteiro está se movendo enquanto o cantor desliza pelo espaço. O truque de “Virtual Insanity” se torna fascinante justamente porque o vídeo não tenta escondê-lo com cortes frenéticos.
Jonathan Glazer constrói a cena como um número de palco filmado com precisão matemática. A câmera e o cenário trabalham juntos para produzir a sensação impossível. O BFI inclui o vídeo na tradição britânica dos “trick films”, filmes de truque que remontam ao início do cinema.
Glazer depois dirigiria Sexy Beast, Sob a Pele e A Zona de Interesse. “Virtual Insanity” já contém aquilo que apareceria nos longas: uma ideia visual simples levada até um grau quase perturbador de controle.
11. Björk — “Bachelorette” (1997)
Direção: Michel Gondry

Michel Gondry fez vários dos grandes clipes de Björk, mas “Bachelorette” talvez seja o ponto em que sua lógica de sonho alcança a forma narrativa mais completa. Björk encontra um livro que começa a escrever sozinho sua própria história. O livro vira sucesso, depois peça de teatro, depois espetáculo dentro do espetáculo.
A narrativa dobra sobre si mesma até que realidade e representação se tornam praticamente indistinguíveis. Anos depois, Gondry levaria essa fascinação por memória, artificialidade e mundos que se desmontam para Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças.
O formato curto permitia esse tipo de risco: uma ideia visual estranha podia ser levada até o fim sem precisar sustentar duas horas de narrativa.
12. Radiohead — “Karma Police” (1997)
Direção: Jonathan Glazer

Glazer usa quase nada: uma estrada escura, um carro, Thom Yorke no banco traseiro e um homem correndo diante dos faróis. A perseguição segue com lentidão suficiente para se tornar desconfortável.
Quando o perseguido percebe que há gasolina vazando do carro e consegue inverter a situação, o vídeo muda de sentido sem precisar de uma única explicação.
Na nossa matéria sobre a história do Radiohead, essa dimensão visual aparece várias vezes: a banda percebeu cedo que o videoclipe não precisava transformar seus integrantes em estrelas de televisão; podia tornar o mundo ao redor deles ainda mais estranho.
13. Björk — “All Is Full of Love” (1999)
Direção: Chris Cunningham

Dois robôs brancos são montados por braços mecânicos em um ambiente clínico. Quando se encontram, beijam-se. Chris Cunningham transforma tecnologia, erotismo e delicadeza em uma única imagem.
Décadas depois, o design dos robôs e a iluminação clínica de “All Is Full of Love” ainda parecem convincentes. Os efeitos visuais não buscam espetáculo pelo excesso; servem para dar credibilidade a uma cena emocional impossível.
A força visual foi reconhecida também fora da música. Os robôs criados para o clipe integraram a exposição dedicada a Björk no Museum of Modern Art, em Nova York.
14. Aphex Twin — “Windowlicker” (1999)
Direção: Chris Cunningham

“Windowlicker” começa com uma longa abertura que parodia videoclipes de hip-hop e R&B da época. Um carro impossível chega, Richard D. James aparece de limousine e, aos poucos, rostos passam a adquirir sua expressão inquietante.
Cunningham usa os clichês da própria MTV para deformá-los. Mulheres, carros, câmera lenta e ostentação continuam presentes, mas tudo se torna grotesco. É uma crítica feita de dentro da linguagem que pretende criticar.
O resultado é desconfortável, engraçado e tecnicamente preciso. A sátira mira justamente o vocabulário visual que dominava boa parte da MTV no fim dos anos 1990.
15. Fatboy Slim — “Weapon of Choice” (2001)
Direção: Spike Jonze
Depois de monstros, robôs, cidades futuristas e milhões de dólares, Spike Jonze encerra esta lista com algo radicalmente simples: Christopher Walken sozinho em um hotel vazio.
Walken levanta da cadeira, começa a dançar pelos corredores, sobe em mesas, entra em elevadores e finalmente voa pelo saguão. O prazer vem de assistir um ator conhecido por personagens ameaçadores revelar a formação de dançarino que teve antes de se tornar estrela de cinema.
“Weapon of Choice” venceu vários prêmios no VMA de 2001 e ganhou o Grammy de Melhor Videoclipe em 2002. É praticamente um curta musical sem diálogos — e uma despedida perfeita para a fase em que o videoclipe ainda podia ocupar o centro da cultura pop.
Os videoclipes da MTV também foram uma escola de cineastas
É difícil olhar para essa lista sem perceber um padrão. Muitos dos diretores que definiram a imagem da MTV acabaram no cinema. David Fincher fez “Express Yourself” antes de Seven. Spike Jonze fez “Sabotage” antes de Quero Ser John Malkovich. Michel Gondry construiu os mundos impossíveis de Björk antes de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Jonathan Glazer passou por Jamiroquai e Radiohead antes de Sob a Pele e A Zona de Interesse.
O British Film Institute trata o videoclipe como um espaço de experimentação em que diretores, fotógrafos, montadores e artistas de efeitos desenvolveram técnicas que depois migraram para longas-metragens. A duração era curta; a ambição, nem sempre.
Por que aquilo parecia tão maior do que um vídeo de três minutos?
Parte da resposta está na escassez. Você não tinha qualquer clipe disponível a qualquer momento. Era preciso esperar. Se perdia a estreia, talvez só encontrasse o vídeo novamente horas ou dias depois. Essa limitação criava expectativa.
Também existia uma lógica econômica diferente. Um grande clipe podia vender discos durante meses, sustentar a imagem de uma turnê e definir uma era inteira de um artista. Era razoável, portanto, tratar o vídeo como investimento de longo prazo.
Hoje a produção audiovisual musical circula em muito mais plataformas e em ritmos muito mais rápidos. O que se perdeu foi a centralização: dificilmente milhões de pessoas estão vendo exatamente o mesmo clipe, no mesmo canal, durante a mesma semana. A experiência se fragmentou entre YouTube, TikTok, Instagram e serviços de streaming.
Quando a estreia de um clipe era uma estreia de verdade
A diferença central daquela era estava na forma como esses lançamentos chegavam ao público. “Thriller”, “Take On Me”, “Sabotage” ou “Virtual Insanity” não funcionavam apenas como anexos de uma música; acrescentavam uma obra visual ao redor dela.
A MTV ajudou a criar um ambiente em que quatro minutos podiam receber o tratamento de um filme: direção reconhecível, fotografia própria, design de produção, efeitos, elenco e uma ideia que precisava sobreviver depois do refrão.
Rever esses videoclipes da MTV hoje deixa claro por que muitos continuam reconhecíveis décadas depois: suas imagens sobreviveram ao contexto original de exibição e ainda funcionam mesmo separadas da programação que as transformou em eventos.
Fontes e referências
- History — lançamento da MTV em 1981
- BFI — história do videoclipe britânico e sua relação com o cinema
- Recording Academy — “Thriller” como ponto de virada da MTV
- Library of Congress — Michael Jackson’s Thriller
- a-ha — produção e rotoscopia de “Take On Me”
- Peter Gabriel — créditos e prêmios de “Sledgehammer”
- Madonna — “Express Yourself” e David Fincher
- Criterion — Beastie Boys Video Anthology
- MoMA — Björk e os robôs de “All Is Full of Love”
- UPI — vencedores do MTV Video Music Awards de 1996
- GRAMMY — prêmio de “Weapon of Choice” em 2002
- Rolling Stone — “Smells Like Teen Spirit”, estreia no 120 Minutes e rotação na MTV




