
Compositor conhecido por transformar fita, memória e deterioração em música volta ao instrumento de forma direta em Passing the Cup of Sorrows, previsto para 23 de outubro.
William Basinski anunciou Passing the Cup of Sorrows, seu primeiro álbum solo de piano em seis anos. O trabalho chega em 23 de outubro pela Temporary Residence Ltd. e é construído como uma única peça de aproximadamente 40 minutos. Um primeiro trecho, “Passing the Cup of Sorrows 1.1”, já foi disponibilizado como prévia.
Um retorno ao essencial
Basinski se tornou uma das figuras mais reconhecidas da música ambiente contemporânea por uma razão quase paradoxal: boa parte de sua obra mais famosa nasce justamente do desaparecimento do som. Em The Disintegration Loops, fitas analógicas antigas se desfaziam fisicamente enquanto eram reproduzidas, transformando deterioração em composição.
O novo disco segue por outra direção. Em vez de colocar o processo técnico no centro da experiência, Basinski retorna ao piano como matéria principal. O formato de uma única peça longa aproxima o álbum de uma meditação contínua, sem a lógica tradicional de faixas independentes.
Segundo o anúncio divulgado pela Pitchfork, o título foi inspirado pelo conceito de “Life Between Lives”, associado à hipnoterapia e a ideias de reconciliação espiritual depois de relações turbulentas. É um tema que conversa diretamente com elementos recorrentes na obra do compositor: memória, perda, passagem do tempo e a sensação de observar algo desaparecer lentamente.
Depois de Lamentations
Passing the Cup of Sorrows sucede, entre os trabalhos solo, Lamentations, lançado em 2020. Desde então, Basinski também manteve uma série de projetos colaborativos e relançamentos de arquivo. Em 2022, por exemplo, trabalhou com Janek Schaefer em … on reflection; nos anos seguintes continuou revisitando gravações antigas e expandindo sua discografia.
A gravadora Temporary Residence, parceira de longa data do artista, já colocou o novo álbum em pré-venda. A escolha do piano como centro do projeto sugere um disco menos dependente da textura das fitas e mais próximo do gesto performático — ainda que a repetição, o espaço e o silêncio continuem sendo elementos fundamentais do vocabulário de Basinski.
Um compositor de culto fora do circuito tradicional
Basinski ocupa um lugar singular entre música experimental, ambient e arte sonora. Seu público não depende de rádio, singles ou turnês gigantes; a força de sua obra está justamente na construção de experiências longas, lentas e imersivas. Em um cenário musical cada vez mais orientado por faixas curtas e consumo acelerado, lançar uma composição de 40 minutos em 2026 soa quase como uma declaração estética.
Passing the Cup of Sorrows chega em 23 de outubro. Para quem acompanha Basinski desde The Disintegration Loops, o interesse está menos em saber se ele vai repetir fórmulas e mais em ouvir como um artista tão associado à erosão da fita lida agora com a exposição direta do piano.




