The Best Summer: as fitas perdidas de 1995 com Beastie Boys, Sonic Youth e Foo Fighters

Uma caixa de fitas Hi8 esquecida por quase 30 anos revelou Beastie Boys, Sonic Youth, Foo Fighters, Pavement, Beck e Bikini Kill nos bastidores do Summersault de 1995. A história de The Best Summer.

Em janeiro de 2025, enquanto se preparava para evacuar sua casa em Malibu por causa do Palisades Fire, a diretora Tamra Davis começou a retirar caixas antigas que estavam guardadas havia anos. Em uma delas havia fitas de vídeo que ela mal lembrava ter gravado. Quando conseguiu encontrar uma câmera capaz de reproduzi-las, viu aparecer na pequena tela um pedaço praticamente intacto de 1995: Beastie Boys, Sonic Youth, Foo Fighters, Pavement, Beck, Bikini Kill, The Amps e Rancid circulando por palcos, camarins, hotéis e aeroportos sem imaginar que alguém, três décadas depois, chamaria aquilo de arquivo histórico.

Essas fitas deram origem a The Best Summer, documentário de 84 minutos dirigido por Davis e montado com material registrado durante o festival itinerante australiano Summersault e nas datas que vieram depois, no Sudeste Asiático. O filme estreou no Sundance Film Festival em janeiro de 2026 e passou por festivais como Tribeca, Sydney e Melbourne. Mais do que reunir nomes que depois se tornariam ainda maiores, o filme preserva músicos ainda dentro daquele momento, registrados por uma câmera doméstica num período em que celulares com vídeo simplesmente não faziam parte do ambiente.

Integrantes dos Beastie Boys durante a turnê Summersault de 1995, em imagem do documentário The Best Summer.
Beastie Boys durante a turnê australiana registrada por Tamra Davis em 1995.

Uma caixa de fitas salva durante um incêndio

A história começou durante a evacuação. No Sundance, Davis contou que as fitas chegaram a ser deslocadas três vezes durante os incêndios do sul da Califórnia. Depois, ao conseguir reproduzir o material em equipamento compatível com Hi8, percebeu que não tinha apenas lembranças dos Beastie Boys, banda de seu então marido Mike D: havia registrado Foo Fighters, Beck, Pavement, Bikini Kill, Sonic Youth e muito mais.

Ela sabia que costumava registrar viagens com os Beastie Boys. O que não lembrava era a quantidade de material de Foo Fighters, Beck, Pavement e outras bandas. O Los Angeles Times relatou que a própria Davis se surpreendeu ao rever a disciplina com que apontava a câmera para tudo: se Pavement aparecia, ela filmava Pavement; se alguém começava a conversar num camarim, ela continuava gravando.

Reflexo de Tamra Davis com uma câmera em óculos escuros durante a turnê registrada em The Best Summer.
A presença da câmera de Tamra Davis era tão cotidiana na turnê que boa parte das pessoas simplesmente parou de percebê-la.

Essa invisibilidade informal virou o principal recurso do documentário. Davis não estava filmando um especial oficial de televisão com entrevistas marcadas, posições de câmera, iluminação e autorização de cada gesto. Ela estava acompanhando amigos e conhecidos com uma Sony Hi8. A qualidade de imagem é doméstica, mas o acesso não é.

Summersault: um festival improvável com um line-up quase absurdo

O Summersault atravessou a Austrália entre 29 de dezembro de 1995 e 7 de janeiro de 1996. Foram cinco datas — Melbourne, Sydney, Gold Coast, Adelaide e Perth — com um line-up que hoje parece montagem de fã: Beastie Boys, Sonic Youth, Foo Fighters, Pavement, Beck, Rancid, Jawbreaker, Bikini Kill e The Amps, além de artistas locais e nomes ligados à cena eletrônica e ao selo Mo’Wax.

Imagem de arquivo do Summersault 1995 com a capa do programa do festival e sua programação alternativa.
O Summersault reuniu uma concentração incomum de bandas que, naquele momento, ocupavam o ponto de encontro entre o underground e o mainstream.

O festival foi criado pelo jovem promotor Stephen “Pav” Pavlovic como alternativa — e também como concorrente direta — ao já estabelecido Big Day Out. A história empresarial não terminou bem: o Summersault atraiu menos público do que precisava, perdeu muito dinheiro e nunca teve uma segunda edição. Musicalmente, porém, a escala do encontro ficou evidente com o tempo.

Em 1995, várias dessas bandas estavam em momentos de transição muito específicos. Os Beastie Boys vinham de Ill Communication e já dominavam o palco como uma das grandes forças do rock alternativo e do hip-hop. Sonic Youth carregava mais de uma década de história e uma posição central na cultura indie. Pavement estava na fase de Wowee Zowee. Rancid tinha acabado de lançar …And Out Come the Wolves. Kim Deal excursionava com The Amps durante a pausa dos Breeders. E o Foo Fighters ainda era, para grande parte do público, “a nova banda de Dave Grohl”.

Dave Grohl ainda estava aprendendo a ser o vocalista do Foo Fighters

O primeiro álbum do Foo Fighters havia sido lançado poucos meses antes, em julho de 1995. No Summersault, Grohl já estava à frente de uma banda de verdade — com Nate Mendel, Pat Smear e William Goldsmith —, mas sua identidade pública ainda era inseparável do Nirvana. Isso torna as imagens especialmente curiosas: o documentário registra um músico entre duas versões da própria carreira.

Performance ao vivo registrada por Tamra Davis durante a turnê Summersault de 1995 para o documentário The Best Summer.
The Best Summer preserva apresentações de perto, registradas com equipamento doméstico e acesso que uma equipe profissional talvez não tivesse.

Kathleen Hanna entrevista Grohl no filme e pergunta sobre a diferença entre a pessoa fora do palco e a figura que aparece diante de uma multidão. As respostas ainda carregam o contexto do fim recente do Nirvana, mas também mostram um vocalista em construção: Grohl chega a admitir que não gosta de ter de falar com a plateia entre as músicas, algo curioso para quem depois se tornaria um dos frontmen mais expansivos do rock.

O valor está justamente na falta de retrospectiva. Grohl ainda não sabe o que o Foo Fighters vai se tornar. Beck está a poucos meses de lançar Odelay. As falas não vêm embaladas pela segurança de quem já conhece o desfecho da própria carreira.

Kathleen Hanna vira entrevistadora — por tédio

Uma das decisões que deram forma ao filme nasceu sem qualquer planejamento. Davis e Kathleen Hanna, do Bikini Kill, começaram a circular pelos bastidores fazendo perguntas porque estavam entediadas durante a turnê. Nada indicava que aquilo seria usado em um longa.

Kim Gordon e Kathleen Hanna durante a turnê Summersault registrada por Tamra Davis em 1995.
Kim Gordon e Kathleen Hanna: o documentário preserva também a circulação de mulheres num circuito alternativo que a história do rock muitas vezes resumiu a bandas lideradas por homens.

Hanna pergunta a Kim Gordon, Stephen Malkmus e Dave Grohl o que os atrai no palco e se a personalidade muda durante uma apresentação. Davis faz perguntas mais rápidas para Adam Yauch, Kim Deal, Beck e outros: comida favorita, cor favorita, livro que estão lendo, lema pessoal, companheiro de viagem.

As perguntas são simples e repetidas de artista para artista, mas justamente por não nascerem de uma pauta promocional produzem respostas menos polidas. Há pausas, hesitação, humor e momentos em que o entrevistado claramente ainda está pensando no que dizer. Esse tom informal combina com a natureza doméstica das fitas.

Bikini Kill tocava cedo — mas a câmera não tratava a banda como atração secundária

Na estreia de Sundance, Hanna lembrou que o Bikini Kill recebeu um horário ingrato, por volta das duas da tarde, em um palco que ela ironicamente descreveu como próximo das lixeiras. Na montagem de Davis, porém, a banda não parece menor do que os grandes nomes do cartaz. A câmera estava perto, interessada e afetivamente envolvida.

Isso é importante porque o rock alternativo dos anos 1990 costuma ser recontado por um cânone dominado por homens. The Best Summer mantém Kim Gordon, Kathleen Hanna, Tobi Vail e Kim Deal dentro da mesma paisagem cultural de Beastie Boys, Foo Fighters, Pavement e Beck, sem tratá-las como nota de rodapé.

Músicos e integrantes da equipe reunidos nos bastidores da turnê Summersault de 1995 em imagem de The Best Summer.
Os bastidores mostram uma cena musical menos compartimentada do que as categorias de gênero costumam sugerir.

O romance de Kathleen Hanna e Ad-Rock ficou registrado sem que ninguém percebesse

Um dos registros mais pessoais envolve Kathleen Hanna e Adam “Ad-Rock” Horovitz, dos Beastie Boys. Hanna já descreveu essas imagens como o começo de sua paixão por Horovitz; os dois se tornaram um casal pouco depois da turnê e se casaram em 2006. Nas fitas, porém, nada disso ainda tem a forma de uma história conhecida.

No documentário, Hanna consegue entrevistar vários músicos com segurança, mas muda de comportamento quando chega a Horovitz. Davis descreveu a cena como o instante em que se percebe uma atração surgindo diante da câmera. O curioso é que a gravação não foi feita para documentar um romance. Ninguém sabia que havia um romance para documentar.

Esse detalhe resume o valor das fitas. Uma retrospectiva produzida hoje poderia pedir aos dois que contassem como se conheceram. The Best Summer possui algo mais raro: uma imagem feita antes que aquele momento ganhasse importância biográfica.

Adam Yauch em 1995: imagens que ganharam outro peso depois

Há ainda uma camada inevitável que 1995 não conhecia. Adam Yauch, o MCA dos Beastie Boys, morreu em 2012. Em The Best Summer, ele aparece jovem, ativo e no centro de uma banda em plena potência. Para Davis e para quem acompanhou o grupo, essas imagens carregam um peso que não existia quando foram gravadas.

O filme não força esse material a virar memorial, mas a passagem do tempo é inevitável. Yauch morreu em 2012; nas fitas, ele aparece simplesmente como um músico de 31 anos em plena atividade. O valor documental nasce justamente dessa ausência de consciência histórica no momento da gravação.

Uma época sem celulares apontados para o palco

Assistir a imagens de shows de 1995 produz hoje um estranhamento visual óbvio: o público olha para o palco. Não há uma parede de telas levantadas, nenhuma transmissão ao vivo sendo feita por dezenas de pessoas e pouca consciência de que cada gesto pode ser recortado e publicado em minutos.

Davis comentou que essa ausência altera a relação entre artista e plateia. Também altera os bastidores. A câmera Hi8 é uma exceção, não o ambiente. Por isso as pessoas podem esquecer que estão sendo registradas durante longos períodos.

Essa diferença não torna automaticamente os anos 1990 mais “autênticos”. Artistas já administravam imagem, gravadoras já construíam narrativas e a MTV já era uma máquina de transformar comportamento em linguagem visual. Mas a quantidade de câmeras era muito menor, e isso muda a textura do documento.

Trailer de The Best Summer, documentário de Tamra Davis montado a partir das fitas redescobertas.
Imagem do trailer oficial do documentário The Best Summer, de Tamra Davis, montado a partir de fitas gravadas em 1995.
The Best Summer transforma as fitas redescobertas em um longa de 84 minutos, sem tentar polir o material até ele perder a aparência doméstica.

Por que The Best Summer prefere ficar em 1995

Davis e a editora Jessica Hernandez decidiram preservar a lógica do material original em vez de reconstruí-lo como um documentário retrospectivo convencional. Não há uma fileira de depoimentos atuais explicando 1995. Em algumas apresentações, Davis filmou músicas inteiras em um único take, movendo a câmera de músico para músico. O áudio dos shows vem majoritariamente do microfone embutido da própria Hi8 e, segundo a diretora, foi pouco alterado na pós-produção; as entrevistas receberam algum tratamento adicional de som.

O efeito é simples: o espectador permanece dentro daquele período. Não há um Dave Grohl de 2026 explicando o Dave Grohl de 1995, nem Beck reinterpretando retrospectivamente a própria carreira. O contraste nasce do que o público sabe hoje e do que as pessoas filmadas ainda não podiam saber.

Depois da Austrália, a câmera seguiu para a Ásia

O material não termina com as cinco datas do Summersault. Beastie Boys, Sonic Youth e Foo Fighters seguiram para compromissos no Sudeste Asiático ligados à expansão internacional da MTV. O documentário acompanha parte dessa continuação por Indonésia, Tailândia e outros pontos da região.

Isso amplia o filme para além de um retrato de festival. A câmera entra em aeroportos, deslocamentos e dias em que nada parece acontecer. O que normalmente seria cortado de um especial musical — espera, cansaço, conversa trivial, gente ocupando tempo — vira parte do documento.

Por que o Summersault não voltou em 1997

O festival não conseguiu competir comercialmente com o Big Day Out. Uma retrospectiva publicada pelo site australiano The Music cita uma estimativa contemporânea de cerca de 50 mil pessoas somando as cinco datas, aproximadamente um terço do público do Big Day Out de 1996. Em Sydney, a maior parada do Summersault, foram cerca de 18 mil pessoas. Ao mesmo tempo, a competição entre os dois festivais elevou custos, e relatos da época descrevem gastos generosos com logística, hotéis e tratamento dado às bandas.

O Summersault não voltou no ano seguinte, e Pavlovic mais tarde reconheceria que perdeu muito dinheiro com a iniciativa. Três anos depois, em 1998, ele fundaria a Modular Recordings, selo que se tornaria importante para a música australiana ao lançar e trabalhar com nomes como The Avalanches, Cut Copy e The Presets.

De Sundance para uma nova vida pública

The Best Summer teve estreia mundial na seção Midnight do Sundance Film Festival em 24 de janeiro de 2026. Depois passou por Seattle, Tribeca, Sydney e Melbourne, entre outros festivais. Até agosto de 2026, a Visit Films seguia responsável pelas vendas internacionais do documentário, sem uma data ampla de lançamento comercial ou streaming anunciada em sua página oficial. A recepção crítica se concentrou justamente na característica que divide opiniões: para alguns, a textura de home movie é o que torna o material íntimo; para outros, a mesma informalidade limita o filme como experiência cinematográfica.

Tamra Davis, Kathleen Hanna e Kim Gordon no palco do Sundance Film Festival de 2026 durante a apresentação de The Best Summer.
Tamra Davis, Kathleen Hanna e Kim Gordon apresentam o filme no Sundance de 2026, três décadas depois da turnê.

A discussão faz sentido porque o filme depende menos de uma narrativa construída do que do acesso. Reconhecer Beastie Boys, Sonic Youth ou Foo Fighters obviamente aumenta o impacto, mas há valor também nos intervalos: músicos esperando, conversando, brincando e ocupando o tempo fora do palco, sem a estrutura de uma entrevista oficial.

Por que essas fitas importam tanto agora

Um festival semelhante hoje produziria milhares de vídeos feitos pelo público, pelas bandas e pelas próprias plataformas. A diferença não é que o passado fosse mais autêntico; é que o arquivo resultante tem outra forma.

As fitas de Davis preservam trechos longos, músicas quase inteiras, espera, deslocamento e conversa banal — justamente o material que raramente vira postagem. Elas não foram feitas para publicação imediata, e isso muda o tipo de detalhe que sobrevive.

The Best Summer ganha força por essa combinação de acesso e acaso. Davis estava perto o bastante para filmar músicos em palco, camarim, aeroporto e hotel sem transformar cada encontro em uma entrevista formal, mas também não estava produzindo um longa destinado ao mercado.

As imagens sobreviveram primeiro como memória privada e só depois ganharam função histórica: Beastie Boys em plena forma, Sonic Youth no centro da cultura alternativa, Bikini Kill ainda disputando espaço, Foo Fighters no começo, Beck antes de Odelay, Kim Deal com The Amps e Pavement em um momento-chave do indie rock.

Se aquela caixa não tivesse sido retirada durante a evacuação de Malibu, o material poderia ter continuado armazenado por mais anos. O filme existe porque Davis voltou a olhar para fitas que, durante quase três décadas, não tinham público.


Fontes e referências

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