
A primeira grande biografia musical dedicada a Gilberto Gil estreia nesta quinta-feira, 20 de agosto, no Teatro Santander, em São Paulo, com direção de Miguel Falabella e Gui Ventura no papel do cantor.
Gil – Andar com Fé chega aos palcos com a proposta de evitar o formato convencional de biografia cronológica. Em vez de organizar a trajetória do artista por datas, o espetáculo atravessa diferentes momentos da vida de Gilberto Gil em uma estrutura mais livre, guiada por memória, música, política, religiosidade e referências da cultura brasileira.
O ponto de partida é o exílio em Londres no início dos anos 1970, quando Gil e Caetano Veloso deixaram o Brasil após a repressão da ditadura militar. A partir daí, a montagem retorna à infância na Bahia, passa pela Tropicália, pela descoberta de novas sonoridades, pelas relações familiares e por momentos decisivos de transformação artística.
Um Gil menos monumental e mais humano
Gui Ventura foi escolhido entre mais de 800 candidatos para interpretar Gil. A preparação incluiu pesquisa sobre a obra, a fala, os gestos e a formação musical do artista — além do aprendizado de acordeão, instrumento ligado à infância de Gilberto Gil.
A direção de Miguel Falabella evita uma imitação literal. A ideia é construir um personagem que reconheça a dimensão histórica do músico sem transformá-lo em estátua. O musical trabalha justamente com momentos de crise e vulnerabilidade, incluindo o exílio, relações afetivas e episódios em que a música se tornou resposta a tensões políticas e pessoais.
O personagem Tempo-Rei, inspirado em uma das canções mais conhecidas de Gil, funciona como uma espécie de fio condutor entre épocas diferentes. Isso permite que o espetáculo salte de uma fase a outra sem depender de uma linha temporal rígida.
Tropicália, afrobeat e memória brasileira
A montagem também recupera a ligação de Gil com a Tropicália e com artistas como Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia. Outro eixo importante é a aproximação com culturas africanas, especialmente a viagem à Nigéria em 1977 e o contato com o afrobeat de Fela Kuti, experiência que ajudou a alimentar a fase de Refavela.
Canções como “Andar com Fé”, “Aquele Abraço”, “Drão”, “Haiti”, “Babá Alapalá” e “Punk da Periferia” aparecem integradas à dramaturgia, em vez de funcionarem apenas como sequência de grandes sucessos. A proposta é usar o repertório para explicar mudanças de pensamento, identidade e linguagem musical.
O espetáculo também incorpora referências visuais da arte brasileira, com ecos de nomes como Hélio Oiticica, Lygia Clark e Alfredo Volpi. O resultado busca uma linguagem própria de teatro musical brasileiro, ainda que dialogue com estruturas de grandes produções internacionais.
Temporada em São Paulo
Gil – Andar com Fé estreia em 20 de agosto de 2026 no Teatro Santander e fica em cartaz até 11 de outubro. As sessões acontecem de quinta a domingo. A produção informa que todas as apresentações contam com audiodescrição e interpretação em Libras.
Para um artista cuja obra atravessa mais de seis décadas, a escolha por uma narrativa fragmentada parece adequada: em vez de resumir Gilberto Gil a uma sequência de feitos, o musical tenta mostrar como suas canções nasceram de deslocamentos, encontros, choques e reinvenções.




