Kate Bush: história, discos, Hounds of Love e Running Up That Hill

Kate Bush: conheça a trajetória, os dez álbuns de estúdio, Hounds of Love, The Dreaming, Wuthering Heights, Running Up That Hill e o retorno de Before the Dawn.

MÚSICA / PERFIL / DISCOGRAFIA

Kate Bush entrou no pop britânico em 1978 narrando Wuthering Heights pela voz de Cathy Earnshaw. Nos anos seguintes, passou de jovem compositora de sucesso a uma artista cada vez mais envolvida também em produção, dança, vídeo e tecnologia de estúdio.

De Wuthering Heights a Running Up That Hill, de The Dreaming ao retorno aos palcos em Before the Dawn, a carreira de Bush foi marcada por longos períodos de trabalho em estúdio, poucos compromissos com o circuito tradicional de turnês e um controle criativo crescente sobre os próprios discos.

Kate Bush em 1985
Kate Bush em 1985. Imagem CC0 via Wikimedia Commons.

Uma compositora adolescente antes de existir a estrela pop

Catherine Bush nasceu em 30 de julho de 1958, em Bexleyheath, no sudeste de Londres, e cresceu em uma família musical. Ainda adolescente já escrevia canções em quantidade suficiente para chamar a atenção de David Gilmour, do Pink Floyd. Gilmour ajudou a financiar demos profissionais e a apresentar o material à EMI, que acabaria contratando a jovem compositora.

A gravadora não a lançou imediatamente. Bush passou um período estudando dança, mímica e performance, enquanto continuava compondo. Essa formação ajuda a entender por que seus videoclipes e aparições ao vivo sempre trataram corpo, figurino e gesto como parte da própria música.

Kate Bush em foto promocional de 1978
Kate Bush em foto promocional de The Kick Inside, 1978. Via Wikimedia Commons.

1978: Wuthering Heights muda tudo

O primeiro single foi uma escolha improvável para apresentar uma cantora de 19 anos ao grande público: uma canção inspirada em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, narrada do ponto de vista de Cathy. Wuthering Heights chegou ao número 1 no Reino Unido e tornou Bush a primeira artista feminina a alcançar o topo da parada britânica com uma canção escrita por ela própria.

O impacto não vinha apenas da voz aguda e da melodia fora do padrão. O clipe transformava a música em personagem: dança expressiva, olhar teatral e movimentos criados para sugerir uma presença fantasmagórica. Essa relação entre composição e imagem continuaria durante toda a carreira.

Kate Bush em anúncio de 1979
Kate Bush em anúncio de 1979 para The Kick Inside e Lionheart. Foto: Gered Mankowitz, via Wikimedia Commons.

The Tour of Life: uma turnê construída como espetáculo

Em 1979, Kate Bush saiu em sua única turnê completa por décadas. The Tour of Life misturava banda, dança, narrativa, cenários, projeções e dezenas de trocas de figurino. Como queria cantar e dançar com as mãos livres, Bush e o engenheiro de som ao vivo improvisaram um headset a partir de um microfone e de um cabide de arame dobrado. A própria artista mais tarde descreveu a solução dessa forma em seu site oficial.

A experiência foi tecnicamente complexa, cara e exaustiva. Depois dela, Bush praticamente abandonou as turnês. Continuaria fazendo aparições pontuais, mas a ideia de viver na estrada nunca se tornou parte de sua carreira.

Kate Bush em 1981
Kate Bush, circa 1981. Foto promocional via Wikimedia Commons.

Do sucesso inicial ao controle do estúdio

Lionheart, lançado ainda em 1978, nasceu sob pressão para repetir rapidamente o sucesso do primeiro disco. Já Never for Ever, de 1980, mostra uma artista ampliando seu domínio sobre arranjos e produção. É o álbum de Babooshka, Army Dreamers e Breathing, e também o período em que a tecnologia digital começa a entrar decisivamente em sua música.

O Fairlight CMI — um dos primeiros sistemas digitais de sampling e síntese disponíveis comercialmente — entrou em seu trabalho durante Never for Ever. A própria Bush lembra ter usado, por exemplo, o som do engatilhar de um rifle como elemento percussivo em Army Dreamers. A partir dali, o instrumento se tornaria parte recorrente de seu vocabulário de estúdio.

Kate Bush em foto promocional de The Dreaming
Kate Bush em 1982, período de The Dreaming. Via Wikimedia Commons.

The Dreaming: quando Kate Bush assume totalmente a produção

Lançado em 1982, The Dreaming foi o primeiro álbum produzido integralmente por Kate Bush. O disco é denso, fragmentado e cheio de vozes processadas, percussões abruptas, samples e mudanças de perspectiva. Há canções inspiradas em Houdini, crime, guerra, colonialismo e estados psicológicos extremos.

A recepção inicial foi mais dividida do que em seus trabalhos anteriores. Mais importante para a trajetória de Bush é o grau de autonomia conquistado nesse ponto: ela passou a responder sozinha pela produção do álbum. Anos depois, descreveu The Dreaming como um grande salto criativo.

Kate Bush em 1982
Kate Bush em 1982. Foto promocional da EMI America via Wikimedia Commons.

Hounds of Love: experimento e pop no mesmo disco

Depois da intensidade de The Dreaming, Bush construiu um estúdio em casa e passou anos trabalhando em Hounds of Love. Lançado em 1985, o álbum é dividido em duas metades. A primeira reúne canções pop de enorme alcance — Running Up That Hill, Hounds of Love, The Big Sky e Cloudbusting. A segunda, The Ninth Wave, funciona como uma suíte narrativa sobre uma mulher perdida no mar durante a noite.

O álbum combina singles de grande alcance com uma segunda metade narrativa e experimental. A produção mistura Fairlight, bateria, vozes em camadas e instrumentos acústicos, mas sem separar rigidamente “pop” e “experimento”: os mesmos recursos aparecem dos dois lados do disco.

Kate Bush em 1985 no período de Hounds of Love
Kate Bush em 1985, divulgação de Hounds of Love. Via Wikimedia Commons.

Running Up That Hill: do título original ao renascimento em 2022

A canção nasceu com o título A Deal With God, mas a gravadora temia resistência de algumas rádios e mercados religiosos; o nome principal do single acabou se tornando Running Up That Hill. A letra imagina uma troca de lugares entre duas pessoas para que cada uma consiga compreender a experiência da outra.

Em 2022, a música ganhou uma nova onda de popularidade depois de aparecer na quarta temporada de Stranger Things. Trinta e sete anos após o lançamento original, chegou pela primeira vez ao número 1 no Reino Unido e permaneceu três semanas no topo. O feito criou ainda um intervalo recorde de 44 anos entre dois singles número 1 de Bush no país, desde Wuthering Heights, em 1978.

Kate Bush no Comic Relief em 1986
Kate Bush no Comic Relief em 1986. Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0.

Dos anos 90 ao longo intervalo antes de Aerial

The Sensual World, de 1989, é um disco de texturas mais orgânicas e temas adultos. This Woman’s Work tornou-se uma das baladas mais conhecidas de seu catálogo. Em The Red Shoes, de 1993, Bush trabalhou com músicos como Prince, Eric Clapton e Jeff Beck, num álbum ligado também ao projeto cinematográfico The Line, the Cross and the Curve.

Depois disso veio um longo intervalo. Em vez de alimentar o ciclo tradicional de álbum-turnê-album, Bush reduziu drasticamente sua exposição pública. O retorno com material novo só aconteceria em 2005.

Aerial e 50 Words for Snow: tempo como matéria-prima

Aerial chegou em 2005 como álbum duplo. Em vez de tentar reproduzir o impacto dos anos 80, Bush trabalha com domesticidade, memória, natureza e ciclos do dia. O segundo disco, A Sky of Honey, acompanha a passagem de uma tarde para a noite e o amanhecer, com pássaros e luz tratados quase como personagens musicais.

Em 2011 ela lançou Director’s Cut, revisitando material antigo, e poucos meses depois 50 Words for Snow. São sete faixas longas, construídas com piano, silêncio, repetição e imagens de inverno. Elton John aparece em Snowed in at Wheeler Street; Steve Gadd toca bateria em boa parte do álbum.

Kate Bush durante Before the Dawn em 2014
Kate Bush durante Before the Dawn, 2014. Foto: Paul Carless / Wikimedia Commons / CC BY 2.0.

Before the Dawn: o retorno aos palcos depois de 35 anos

Em 2014, Kate Bush anunciou uma residência no Hammersmith Apollo, em Londres. Os 22 shows de Before the Dawn marcaram seu retorno a uma produção de palco de grande escala depois de 35 anos. Não era uma turnê nostálgica convencional: o espetáculo reconstruía sequências completas de Hounds of Love e Aerial com teatro, projeções, cenários e narrativa.

As apresentações deram origem ao álbum ao vivo Before the Dawn, lançado em 2016. Bush não transformou a experiência em uma nova rotina de shows. O evento permaneceu excepcional — exatamente como sua relação histórica com o palco.

Kate Bush e Mino Cinelu durante Before the Dawn
Kate Bush e Mino Cinelu durante Before the Dawn, Londres, 2014. Via Wikimedia Commons.

Uma influência que não cabe em um único gênero

Kate Bush costuma aparecer ligada a art pop, art rock, progressive pop e música alternativa, mas nenhuma dessas etiquetas explica sozinha seu alcance. Tori Amos, Björk, St. Vincent, FKA twigs, Florence Welch, Big Boi e inúmeros outros artistas já apontaram sua influência ou demonstraram afinidade clara com seu modo de tratar voz, estúdio e personagem.

Em 2023, Bush entrou para o Rock & Roll Hall of Fame na categoria Performer. No ano seguinte, disse à BBC que estava “muito interessada” em começar um novo álbum e que tinha muitas ideias, mas deixou claro que ainda não estava trabalhando nesse material. Em 2025, lançou Best of The Other Sides, seleção de lados B e faixas fora dos álbuns. A edição trouxe remasterização de parte do material e pequenos ajustes em faixas como Experiment IV e You Want Alchemy?. Até agosto de 2026, nenhum novo álbum de estúdio foi anunciado oficialmente.

Kate Bush no Spotify

O perfil oficial reúne os álbuns remasterizados, singles, raridades e o registro de Before the Dawn.

Discografia de estúdio: capas e álbuns

Os players oficiais do Spotify abaixo exibem as capas e permitem ouvir trechos dos dez álbuns de estúdio reconhecidos no catálogo oficial de Kate Bush. Director’s Cut, de 2011, entra nessa contagem como o nono álbum de estúdio, embora seja formado por releituras de faixas de The Sensual World e The Red Shoes.

Por onde começar a ouvir Kate Bush

Para um primeiro contato, Hounds of Love continua sendo o ponto de entrada mais completo: acessível sem ser simples, experimental sem perder a força melódica. Depois, The Kick Inside mostra a compositora precoce; The Dreaming mostra a produtora sem freio; Aerial revela a maturidade e o gosto por estruturas longas.

Quem quiser seguir pelas canções pode começar por Wuthering Heights, Running Up That Hill, Cloudbusting, Babooshka, This Woman’s Work, Army Dreamers, Hounds of Love, Suspended in Gaffa, Night of the Swallow e King of the Mountain.

O que define a obra de Kate Bush

A partir de The Dreaming, Bush passou a controlar diretamente a produção dos próprios discos, ao mesmo tempo em que manteve envolvimento intenso com composição, interpretação, vídeo e performance. Ferramentas como o Fairlight CMI, o estúdio doméstico e os recursos teatrais de palco aparecem como meios para organizar ideias musicais e narrativas, não como assunto principal da obra.

O catálogo também resiste a uma leitura linear. Wuthering Heights, The Dreaming, Hounds of Love, Aerial e 50 Words for Snow pertencem a momentos muito diferentes, mas compartilham a mesma combinação de composição narrativa, atenção à voz e uso de estúdio como parte do arranjo.

Fontes e leituras

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