KISS: história, maquiagem, discos e como a banda transformou o rock em espetáculo

KISS: conheça a história da banda, as quatro personas, Alive!, Destroyer, a fase sem maquiagem, a reunião de 1996, o fim das turnês e o futuro com avatares.

MÚSICA / HISTÓRIA / HARD ROCK

Desde 1973, o KISS tratou música e apresentação como partes do mesmo projeto. Maquiagem, personagens, fogo, sangue cenográfico, plataformas, logotipo e merchandising foram construídos ao lado de um repertório pensado para funcionar em salas cada vez maiores.

A imagem explica apenas parte da permanência do grupo. Alive!, Destroyer, a fase sem maquiagem, a reunião da formação original e as sucessivas mudanças de integrantes mostram uma banda que precisou se reconstruir várias vezes sem abandonar um repertório baseado em riffs diretos e refrões feitos para arenas.

KISS com Paul Stanley, Gene Simmons, Peter Criss e Ace Frehley em 1976
A formação original do KISS em 1976: Paul Stanley, Gene Simmons, Peter Criss e Ace Frehley. Foto promocional via Wikimedia Commons; domínio público nos EUA.

De Wicked Lester a KISS

A história começa em Nova York. Gene Simmons e Paul Stanley haviam tocado juntos no Wicked Lester, projeto que chegou a gravar material para a Epic, mas não se transformou na banda que os dois queriam. Em 1972 e 1973, eles começaram a montar um novo grupo com uma proposta mais direta: músicas fortes, identidade visual imediata e um show impossível de confundir com qualquer outro.

Peter Criss entrou primeiro, depois de anunciar que procurava uma banda. Ace Frehley completou o quarteto após uma audição. Em 1973, o nome KISS foi adotado, e os quatro começaram a desenvolver não apenas repertório, mas também as versões iniciais das maquiagens que logo se tornariam inseparáveis da banda.

Demon, Starchild, Spaceman e Catman

Os personagens do KISS não surgiram de uma campanha publicitária pronta. Eles foram sendo definidos enquanto a banda ensaiava, tocava em clubes e experimentava maquiagem e figurinos. Gene Simmons virou The Demon; Paul Stanley, The Starchild; Ace Frehley, The Spaceman; e Peter Criss, The Catman.

As maquiagens funcionavam como identidades estáveis, não apenas como figurinos de uma fase. Cada rosto podia ser reconhecido à distância e reproduzido em pôsteres, revistas, camisetas e produtos licenciados. À medida que o merchandising cresceu, os quatro personagens passaram a circular muito além dos shows.

Gene Simmons como Demon no KISS em 1977
Gene Simmons como The Demon em 1977. Foto promocional via Wikimedia Commons; domínio público nos EUA.

Os primeiros discos não fizeram do KISS um fenômeno imediato

O álbum de estreia, Kiss, saiu em 1974 e já trazia várias músicas que permaneceriam no repertório por décadas: Strutter, Deuce, Cold Gin, Firehouse e Black Diamond. No mesmo ano veio Hotter Than Hell; em 1975, Dressed to Kill.

Os discos criaram uma base de fãs, mas as vendas ainda não correspondiam ao impacto dos concertos. No palco, plataformas, fumaça, fogo e a interação dos quatro acrescentavam uma dimensão que os primeiros LPs não registravam por completo. Essa diferença ajudou a explicar a aposta seguinte da banda: um álbum ao vivo.

KISS se apresentando ao vivo em 1977 com maquiagem e figurinos de palco
KISS ao vivo em 1977. Foto promocional da Agency for the Performing Arts via Wikimedia Commons; domínio público nos EUA.

Alive!: o disco que capturou a banda que o estúdio ainda não tinha capturado

Lançado em setembro de 1975, Alive! foi o ponto de virada. O álbum reuniu gravações de shows e depois passou por correções e reforços de estúdio: guitarras fora de afinação foram ajustadas, efeitos sonoros foram acrescentados e a resposta da plateia foi ampliada na mixagem. A intenção era reproduzir no disco a intensidade que o público encontrava nos concertos.

A estratégia funcionou. A versão ao vivo de Rock and Roll All Nite deu ao grupo seu primeiro grande single nos Estados Unidos, e Alive! rendeu ao KISS seu primeiro disco de platina. Mais do que um documento bruto de palco, é uma produção pensada para transformar a experiência do show em álbum.

Peter Criss como Catman no KISS em 1977
Peter Criss como The Catman em material promocional de 1977. Casablanca Records / Wikimedia Commons; domínio público nos EUA.

Destroyer, Bob Ezrin e um KISS maior do que o hard rock básico

Depois do sucesso de Alive!, a banda poderia simplesmente repetir a fórmula. Em vez disso, chamou Bob Ezrin para produzir Destroyer, de 1976. O resultado expandiu arranjos, efeitos e ambição sem apagar o peso das guitarras.

Detroit Rock City, God of Thunder e Shout It Out Loud se tornaram peças centrais do repertório. A surpresa comercial foi Beth, balada cantada por Peter Criss que chegou ao nº 7 da Billboard Hot 100 — o single de melhor posição do KISS nos Estados Unidos. Destroyer também ampliou a linguagem de estúdio do grupo, com arranjos e efeitos muito além do formato mais direto dos três primeiros discos.

1976 a 1978: quando a banda virou uma indústria

Rock and Roll Over, Love Gun e Alive II mantiveram o grupo em alta. Ao mesmo tempo, o KISS multiplicava produtos e aparições. A chamada KISS Army crescia como comunidade de fãs, enquanto a iconografia dos quatro personagens se espalhava por camisetas, pôsteres, brinquedos, lancheiras, revistas e outros produtos licenciados.

Em 18 de setembro de 1978, Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss lançaram seus quatro álbuns solo simultaneamente, com projeto gráfico coordenado e divulgação conjunta. O movimento atendia também a compromissos contratuais e oferecia espaço para cada integrante trabalhar fora da dinâmica do grupo. O lançamento simultâneo reforçava a força comercial da marca, enquanto os próprios discos deixavam claras as diferenças musicais entre os quatro integrantes.

KISS se apresentando ao vivo em 1979 durante a fase Dynasty
KISS ao vivo em 1979, período da Dynasty Tour. Imagem creditada à General Electric e publicada pela Billboard; via Wikimedia Commons.

I Was Made for Lovin’ You: quando o KISS entrou na pista de dança

Em 1979, Dynasty trouxe uma das músicas mais populares da carreira: I Was Made for Lovin’ You. A base dançante e a pulsação próxima da disco music dividiram parte dos fãs mais pesados, mas ampliaram novamente o alcance do grupo.

Ao mesmo tempo, a formação original começava a se desfazer. Peter Criss já participava menos das gravações e deixaria oficialmente a banda em 1980; Ace Frehley sairia em 1982. A partir daí, o KISS precisaria decidir quanto da identidade visual criada pelos quatro poderia sobreviver às mudanças de integrantes.

Ace Frehley, guitarrista original do KISS
Ace Frehley, o Spaceman original. Foto: thebudman623 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Eric Carr, Vinnie Vincent e a primeira grande reconstrução

Eric Carr substituiu Peter Criss em 1980 e criou sua própria persona, The Fox. A banda atravessou então uma sequência confusa de movimentos: Unmasked, o conceitual Music from “The Elder” e o retorno ao peso com Creatures of the Night.

Ace Frehley deixou a banda em 1982. Vinnie Vincent, que já havia participado das sessões de Creatures of the Night, assumiu a guitarra na turnê e depois foi apresentado como integrante. A maquiagem continuava, mas metade da formação original já havia mudado. Em 1983, Paul Stanley e Gene Simmons decidiram abandonar os personagens no lançamento de Lick It Up.

1983: o KISS tira a maquiagem na MTV

Em 18 de setembro de 1983, o KISS apareceu sem maquiagem na MTV no mesmo dia em que Lick It Up foi lançado. A revelação reuniu Paul Stanley, Gene Simmons, Eric Carr e Vinnie Vincent e encerrou, por quase 13 anos, a fase em que os personagens eram parte obrigatória da imagem pública da banda.

A mudança ajudou a reposicionar o grupo dentro do hard rock dos anos 1980. Lick It Up, Animalize, Asylum, Crazy Nights e Hot in the Shade pertencem a uma fase visualmente muito diferente dos anos 70, mas mantiveram o KISS ativo numa década em que novas bandas de arena e glam metal dominavam a MTV.

Bruce Kulick, Eric Singer e a fase sem personagens

Depois da passagem curta de Mark St. John, Bruce Kulick assumiu a guitarra e se tornou peça importante da formação sem maquiagem. Eric Carr permaneceu na bateria até morrer em 1991. Eric Singer entrou em seu lugar durante o período de Revenge, lançado em 1992.

Esse KISS tinha uma imagem muito menos fantástica e um som mais alinhado ao hard rock pesado do início dos anos 90. Mas o passo que redefiniria a década seguinte não viria de um disco de estúdio: viria de uma reunião.

Paul Stanley do KISS em apresentação em Paris em 1996
Paul Stanley durante a reunião da formação clássica, Paris, 1996. Foto: Tilly Antoine / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

1996: a formação original volta, junto com as quatro maquiagens clássicas

A participação de Peter Criss e Ace Frehley no MTV Unplugged abriu caminho para algo que parecia improvável poucos anos antes. Em 1996, Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss anunciaram uma reunião completa, novamente com maquiagem e figurinos inspirados na fase clássica.

A turnê de reunião foi um enorme sucesso e recolocou a iconografia original no centro da banda. Em 1998 veio Psycho Circus, divulgado como a volta da formação original ao estúdio. Na prática, a reunião foi parcial: Into the Void é a única faixa do álbum em que os quatro integrantes originais tocam juntos, e músicos adicionais assumiram várias partes de guitarra e bateria ao longo do disco.

A primeira “Farewell Tour” não foi realmente o fim

Em 2000, o KISS iniciou uma turnê chamada Farewell Tour. O nome parecia definitivo, mas a banda continuou. As relações com Ace Frehley e Peter Criss voltaram a se deteriorar, e gradualmente Tommy Thayer e Eric Singer assumiram as posições de guitarra e bateria.

A decisão de Thayer usar a maquiagem do Spaceman e Singer a do Catman foi — e continua sendo — um dos assuntos mais discutidos entre fãs. Para Paul Stanley e Gene Simmons, as personas haviam se tornado parte da identidade do KISS além das pessoas que as criaram. Para muitos fãs da formação original, os personagens continuavam ligados diretamente a Frehley e Criss.

KISS ao vivo no Estádio Olímpico de Estocolmo em 2008
KISS ao vivo em Estocolmo, 2008. Foto: Swedenrox / Wikimedia Commons; domínio público.
Eric Singer tocando bateria com o KISS em 2010
Eric Singer com o KISS no Azkena Rock Festival, 2010. Foto: Alberto Cabello / Wikimedia Commons, CC BY 2.0.
Tommy Thayer como Spaceman durante show do KISS em Helsinque
Tommy Thayer como Spaceman. Imagem derivada de foto de Tktt / Wikimedia Commons; domínio público.

Sonic Boom, Monster e a formação mais duradoura da fase final

Com Stanley, Simmons, Thayer e Singer, o KISS voltou a lançar material novo. Sonic Boom saiu em 2009 e Monster em 2012. A principal marca dessa fase foi a estabilidade da formação: durante anos, esse quarteto manteve o KISS em turnês de arenas ao redor do mundo.

Em 2014, o KISS entrou para o Rock & Roll Hall of Fame. A instituição homenageou a formação original — Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss — embora os quatro não tenham tocado juntos na cerimônia.

Gene Simmons no palco com o KISS em 2021 após o efeito de sangue cenográfico
Gene Simmons durante a End of the Road Tour, Chula Vista, 2021. Foto: Pink Floyd Fan 101 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0.

End of the Road: desta vez, o fim das grandes turnês

A End of the Road World Tour começou em 2019 e se estendeu por mais tempo do que o planejado por causa da pandemia. O encerramento aconteceu em 2 de dezembro de 2023, no Madison Square Garden, em Nova York — a cidade onde a história havia começado meio século antes. Esse foi o fim das turnês regulares, não uma proibição absoluta de voltar ao palco: em novembro de 2025, Stanley, Simmons, Tommy Thayer e Eric Singer fizeram apresentações especiais em Las Vegas durante o evento KISS Kruise: Landlocked, as primeiras do grupo desde o encerramento da turnê.

No encerramento do show, o grupo apresentou versões digitais dos personagens do KISS. Aqueles avatares eram ainda um protótipo do projeto que, nos anos seguintes, seria desenvolvido em parceria com a Pophouse.

O KISS depois do KISS: Pophouse, avatares e Las Vegas

Em 2024, a Pophouse Entertainment — empresa cofundada por Björn Ulvaeus, do ABBA — comprou o catálogo, o nome e a propriedade intelectual do KISS em um negócio estimado em mais de US$ 300 milhões. Gene Simmons insistiu desde o anúncio que a operação deveria ser entendida como uma colaboração: ele e Paul Stanley continuariam participando das decisões criativas ligadas à marca.

Em abril de 2026, Stanley, Simmons, o empresário Doc McGhee e a CEO da Pophouse, Jessica Koravos, detalharam o próximo passo: uma experiência baseada em avatares prevista para abrir em Las Vegas em 2028, em um teatro construído para o projeto. O cronograma substitui a previsão inicial de 2027 divulgada quando o acordo foi anunciado. Segundo Stanley, a ideia não é reproduzir um concerto antigo, mas conduzir o público por um ambiente construído em torno do universo do KISS; Simmons afirmou ainda que há músicas novas sendo preparadas para esse futuro projeto.

Ace Frehley: o Spaceman original e uma perda recente

Ace Frehley morreu em 16 de outubro de 2025, aos 74 anos. O laudo médico divulgado depois atribuiu a morte às lesões sofridas em uma queda e a classificou como acidental. Como guitarrista original, deixou uma marca específica no som do KISS: riffs secos, solos bluesy e efeitos de palco como a guitarra que soltava fumaça. Também escreveu músicas importantes do catálogo, entre elas Cold Gin, Parasite e Shock Me.

A morte de Frehley ocorreu menos de dois meses antes do Kennedy Center Honors de 2025, no qual o KISS esteve entre os homenageados. Na cerimônia, Paul Stanley e Peter Criss falaram publicamente sobre a ausência e o legado do guitarrista original; Gene Simmons também participou da homenagem ao grupo.

Os discos essenciais para entender o KISS

Kiss (1974)
A base: riffs, refrões e boa parte do repertório que sustentaria os shows.
Alive! (1975)
O álbum que transformou a energia de palco em sucesso de massa.
Destroyer (1976)
Produção ambiciosa, clássicos e a inesperada força de Beth.
Love Gun (1977)
A formação original no auge do primeiro ciclo.
Dynasty (1979)
A fase de I Was Made for Lovin’ You e a expansão para outros públicos.
Creatures of the Night (1982)
Peso renovado num momento de transição interna.
Lick It Up (1983)
O começo oficial da era sem maquiagem.
Revenge (1992)
Uma das fases mais pesadas e coesas do KISS sem personagens.

KISS no Spotify

O perfil oficial reúne os álbuns de estúdio, registros ao vivo, compilações e relançamentos de um catálogo que atravessa os anos 1970, 80, 90 e 2000.

Por onde começar a ouvir KISS

Se a ideia é entender rapidamente por que o grupo ficou tão grande, comece por Alive! e depois vá para Destroyer. O primeiro entrega a banda como fenômeno de palco; o segundo mostra o que ela conseguia fazer quando o estúdio era tratado como ferramenta criativa.

Depois, passe por Love Gun, Creatures of the Night e Lick It Up. Nas músicas, um caminho direto inclui Deuce, Black Diamond, Rock and Roll All Nite, Detroit Rock City, God of Thunder, Beth, Love Gun, I Was Made for Lovin’ You, Creatures of the Night, Lick It Up e Heaven’s on Fire.

Imagem, repertório e permanência

Os quatro personagens criados pela formação original permaneceram no centro da identidade do KISS mesmo quando Peter Criss e Ace Frehley deixaram de fazer parte da banda. Essa continuidade visual ajudou a manter reconhecível uma marca que atravessou formações, décadas e mudanças de mercado.

A longevidade também dependeu das músicas. Detroit Rock City, Rock and Roll All Nite, Love Gun e I Was Made for Lovin’ You continuaram no repertório mesmo quando a formação mudou. O resultado foi uma identidade em que canção, personagem e show passaram a funcionar juntos, e não como camadas independentes.

Perguntas rápidas sobre o KISS

Quando o KISS foi formado?

Em Nova York, em 1973, a partir da parceria entre Paul Stanley e Gene Simmons e da entrada de Peter Criss e Ace Frehley.

Quem eram os quatro integrantes originais?

Paul Stanley, Gene Simmons, Ace Frehley e Peter Criss.

Quando o KISS tirou a maquiagem?

Em 1983, na campanha de lançamento de Lick It Up.

Quando a formação original voltou?

A reunião completa foi anunciada em 1996, com retorno das maquiagens e dos figurinos clássicos.

O KISS acabou?

As turnês regulares terminaram em dezembro de 2023. O grupo voltou apenas para apresentações especiais em Las Vegas em 2025, enquanto a marca e o catálogo seguem ativos e o projeto de avatares do KISS está previsto para estrear em 2028.

Fontes e leituras

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