Tubarão: como um tubarão quebrado ajudou Spielberg a fazer um filme melhor

Tubarão: veja como as falhas dos tubarões mecânicos de Jaws mudaram a direção de Steven Spielberg e ajudaram a construir o suspense do clássico de 1975.

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Tubarão é lembrado pela precisão do suspense, mas sua produção foi marcada por atrasos, falhas mecânicas e pelas dificuldades de filmar em mar aberto. O contraste entre uma realização problemática e um filme tão controlado em tela é uma das razões pelas quais seus bastidores continuam tão fascinantes.

As falhas do efeito mecânico obrigaram Spielberg e sua equipe a resolver várias cenas sem depender da aparição direta do animal. Montagem, enquadramentos, ponto de vista, som e objetos em cena passaram a sustentar uma parte maior do suspense.

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Pôster do filme Tubarão, de 1975
Pôster de Tubarão (1975), arte de Roger Kastel. Arquivo via Wikimedia Commons; a página do arquivo o classifica como domínio público nos Estados Unidos, mas a situação de direitos autorais varia conforme o país.

As falhas dos tubarões mecânicos reduziram o quanto Spielberg conseguia mostrar em cena. O filme passou a depender mais da sugestão do que da exposição direta.

1. O problema tinha nome: Bruce

A produção usou três moldes de látex e borracha em tamanho real, derivados do mesmo projeto do tubarão mecânico apelidado de Bruce. As versões atendiam a necessidades e ângulos diferentes. A Academy registra que as falhas desses modelos estiveram entre os principais problemas das filmagens; Spielberg escolheu o nome em referência a seu advogado, Bruce Ramer.

Os modelos foram construídos para operar em mar aberto, presos a uma plataforma submersa e movimentados por um braço hidráulico. O AFI registra corrosão frequente, falhas mecânicas e a necessidade de renovar a pele dos modelos com regularidade, inclusive por causa do desgaste e do desbotamento ao sol. Esses problemas consumiam tempo de filmagem e exigiam manutenção constante.

O problema era estrutural: se o monstro não podia aparecer como planejado, o filme precisava encontrar outra maneira de mantê-lo presente.

Grande tubarão-branco nadando no oceano
Grande tubarão-branco. Foto: Elias Levy / Wikimedia Commons / CC BY 2.0.

2. Mostrar menos fez o filme assustar mais

Com o animatrônico indisponível em muitos momentos, Spielberg passou a construir tensão sem mostrar claramente o animal. Água vazia, ponto de vista subaquático, reações humanas e movimentos na superfície começaram a fazer o trabalho que o efeito mecânico não conseguia cumprir.

Isso mudou o filme. O público passou a imaginar o que estava debaixo da água antes de vê-lo. Quando o tubarão finalmente aparece de forma mais explícita, o medo já havia sido construído durante muito tempo.

Steven Spielberg, diretor de Tubarão
Steven Spielberg. Foto: Raph_PH / Wikimedia Commons / CC BY 4.0.

3. Os barris amarelos ajudaram a tornar o tubarão visível sem mostrá-lo

Na segunda metade do filme, os barris presos ao tubarão funcionam como uma solução visual simples. O animal pode não estar visível, mas os barris atravessando a água dizem exatamente onde a ameaça está.

Os barris já fazem parte da ação porque Quint os prende ao animal com arpões. Visualmente, porém, eles cumprem uma segunda função: permitem acompanhar a posição e a força do tubarão mesmo quando o corpo permanece submerso.

4. Filmar no mar de verdade quase destruiu o cronograma

Spielberg decidiu filmar boa parte de Tubarão em Martha’s Vineyard, Massachusetts. O mar real deu ao filme uma textura que seria difícil reproduzir completamente em estúdio, mas trouxe problemas de luz, maré, vento, barcos, som e equipamentos.

A produção havia sido planejada para cerca de 55 dias. A fotografia principal acabou levando 159. O custo também cresceu bastante. Spielberg chegou a temer que aquela experiência arruinasse sua carreira.

Farol de Edgartown em Martha's Vineyard, local das filmagens de Tubarão
Edgartown, em Martha’s Vineyard, onde partes do filme foram rodadas. Imagem em domínio público via Wikimedia Commons.

5. O filme funciona mesmo quando o tubarão não está na tela

A ausência do monstro só funciona porque os personagens sustentam o filme. Roy Scheider dá a Brody um medo muito humano. Richard Dreyfuss traz energia e conhecimento científico para Hooper. Robert Shaw faz de Quint uma presença seca e imprevisível.

Na parte final, quando Brody, Hooper e Quint ficam isolados no barco, o conflito entre os três passa a carregar tanto peso quanto a própria caçada. Isso dá ao filme tempo para desenvolver tensão humana enquanto o tubarão permanece fora de quadro por longos trechos.

Richard Dreyfuss, ator de Tubarão
Richard Dreyfuss, intérprete de Matt Hooper. Foto via Wikimedia Commons / CC BY 2.0.
Roy Scheider, ator de Tubarão
Roy Scheider, intérprete do chefe Brody. Foto via Wikimedia Commons / CC BY-SA 2.0.

6. John Williams fez o tubarão existir pelo som

As duas notas mais famosas da trilha não funcionam apenas como tema musical. Elas se tornam um aviso. Quando entram, o espectador entende que a ameaça está se aproximando mesmo antes de qualquer imagem do tubarão.

Isso foi especialmente importante num filme que precisava sugerir o monstro durante longos trechos. A música de John Williams passou a ocupar parte do espaço deixado pelo animatrônico e transformou a antecipação em uma das principais armas do suspense.

John Williams, compositor da trilha de Tubarão
John Williams, compositor da trilha de Tubarão. Foto via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0.

7. As limitações técnicas mudaram a linguagem do filme

Dizer apenas que “o tubarão quebrou e por isso Spielberg mostrou menos” é correto, mas incompleto. O problema mudou a linguagem do filme. Fez o diretor depender mais de montagem, som, ponto de vista e antecipação.

Spielberg afirmou depois que precisou ser mais inventivo para criar suspense e terror sem ver o tubarão, e que as falhas do efeito acabaram sendo uma sorte para o filme. A versão final, portanto, não é apenas um roteiro executado apesar dos problemas: parte de sua forma nasceu da adaptação a eles.

8. Uma produção problemática terminou em fenômeno de bilheteria

Tubarão estreou em 20 de junho de 1975 e rapidamente se transformou num fenômeno comercial. Foi o primeiro filme a alcançar US$ 100 milhões em aluguel teatral e, até a chegada de Star Wars em 1977, ocupou o posto de maior bilheteria de todos os tempos.

Também recebeu quatro indicações ao Oscar e venceu três: trilha sonora, montagem e som. O sucesso ajudou a consolidar o modelo do grande lançamento de verão que Hollywood exploraria nas décadas seguintes.

9. O suspense continua funcionando mesmo quando o público já conhece o tubarão

A força do filme não depende apenas da surpresa. Mesmo sabendo quando o tubarão aparece, a construção continua funcionando porque o suspense está no ritmo, no enquadramento, na trilha, na montagem e na relação entre os personagens.

O tubarão quebrado impediu Spielberg de resolver tudo da forma mais óbvia. Em troca, obrigou o diretor a construir uma ameaça que podia existir mesmo fora da tela.

Perguntas rápidas sobre Tubarão

O tubarão mecânico realmente quebrava?

Sim. As falhas do animatrônico foram um dos principais problemas da produção e influenciaram diretamente a forma como Spielberg passou a filmar a ameaça.

Por que o tubarão se chamava Bruce?

Bruce era o apelido usado para os tubarões mecânicos da produção; Spielberg escolheu o nome em referência a seu advogado, Bruce Ramer.

Onde o filme foi rodado?

Grande parte das filmagens ocorreu em Martha’s Vineyard, Massachusetts.

Quantos Oscars Tubarão ganhou?

Três: trilha sonora, montagem e som.

Os problemas com Bruce não explicam sozinhos a força de Tubarão, mas mudaram decisões importantes de direção. O filme aprendeu a sustentar a ameaça antes de mostrá-la.

Mais de meio século depois da estreia, a economia visual continua sendo uma das características mais fortes do filme: o que aparece, o que permanece fora de quadro e o tempo entre a sugestão e a revelação.

Fontes e leituras

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